FENOMENOLOGIA E VERDADE

Por Jacob Robert Schneider 

Biodanza fenomenologia e verdadeO que significa “verdade” numa constelação? Seria uma grande incompreensão do que acontece nela tomá-la como concordância entre a realidade objetiva e o conhecimento, ou como sua expressão em linguagem. A verdade nas constelações é antes comparável à verdade de uma peça teatral. Ela se faz presente, de forma algo condensada, na imagem e na linguagem, permitindo que venha à luz a realidade oculta. As constelações não são uma reprodução da realidade de um relacionamento. Elas des-velam uma realidade, no sentido do conceito grego de verdade (a-létheia). Esta é também a essência da arte. E, como muitas formas de terapia ou de aconselhamento, as constelações dão muitas vezes um passo além disso. Elas ajudam a assumir a realidade, tal como ela se apresenta e atua, e a preenchê-la com amor.

Fenomenologia significa, de modo geral, perceber e descrever a realidade tal como ela se manifesta. Num sentido filosófico mais elaborado, a fenomenologia se refere a uma forma de experiência, em que a realidade – através de sua forma de manifestação – se dá a conhecer em sua essência, seu sentido e seu ser mais profundo. A percepção fenomenológica é nosso último recurso quando queremos olhar para fenômenos da alma que se ocultam por trás da superfície de suas aparências. Quem busca ajuda precisa de um conselho ou de uma terapia para encarar o que ele não pode saber, e para entendê-lo em sua razão mais profunda.

Na grande maioria das relações sociais dependemos do conhecimento fenomenológico. Até mesmo uma grande parte de nossas ciências naturais começa por uma visão do fenômeno. Aquilo que se manifesta nas constelações sob a forma de conhecimento fenomenológico só se comprova, em última análise, por seus efeitos e pelo fato de que também outras pessoas vêem, de repente, o que antes estava oculto. Presumir nos participantes de uma constelação uma submissão completa ao dirigente do grupo seria enganar-se redondamente. Os participantes, em sua maioria, olham com muita atenção o que se passa, e o dirigente do grupo com freqüência percebe isto de imediato quando interpreta erradamente o que acontece na constelação ou quando faz afirmações implausíveis, contrariando a percepção dos participantes e do cliente.

Para ver precisamos de um “artista” que vê o que se esconde na profundidade – e aqui “profundidade” não quer dizer algo místico. Ele é comparável a um rastreador que descobre e interpreta vestígios que permanecem ocultos a um espectador inexperiente. Como Bert Hellinger e a maioria dos consteladores não realizam controles posteriores sobre o efeito das constelações, a percepção dos “rastros” muitas vezes carece de comprovação. Mas existem suficientes informações de retorno, imediatas ou posteriores, por parte dos clientes, que atestam a veracidade e a eficácia desse rastreamento.

Naturalmente, a contemplação fenomenológica está sujeita a fantasias, interpretações equivocadas, erros, construções mentais e pressões de grupos. Por esta razão, muitos consteladores se treinam constantemente para voltar a ser receptivos e livres diante da realidade da alma, da forma como ela se manifesta. As constelações requerem uma extrema contenção do terapeuta no que toca a perceber, interpretar e agir. Fenomenologicamente verdadeiro’ é o que se realiza imediatamente numa constelação e, além dela, na vivência pessoal imediata, e não 0 objeto da crença num terapeuta ou numa instância superior. “O presente é irrefutável”, no dizer de Kafka.

O método fenomenológico aparece como provocante somente quando se aplicam a uma dinâmica social padrões científicos inadequados e incompatíveis, ou quando se acredita que a verdade pode ser manejada e produzida em discursos, A fenomenologia só é provocante para o puro construtivista que se limita a apurar se “a chave serve”, sem reconhecer uma certa cognoscibilidade à fechadura e à própria chave.

As relações não se configuram de um modo caótico e arbitrário, mesmo quando às vezes são experimentadas dessa forma. Como toda realidade, elas se subordinam a determinadas ordens. Isto é indiscutível. A questão está em saber como se originam essas ordens e se podem ser reconhecidas. Freqüentemente Bert Hellinger e outros consteladores são acusados de declarar universalmente válidas e tentar impor ordens arcaicas, culturalmente condicionadas e há muito ultrapassadas.

Essa crítica parece compreensível à primeira vista, quando, por exemplo, se fala da “hierarquia pela origem”, do significado da união conjugal, de uma mudança de nome ou de uma reverência aos pais. Estamos acostumados a desconfiar de ordens culturalmente preestabelecidas e a reivindicar nossa autonomia e emancipação. Quando vemos – e não só em constelações – o que acontece nas relações, deparamos com algo desafiador, a saber, que nelas atuam forças ordenadoras, ancoradas em nossa alma como uma marca biológica e uma realidade coletivamente ordenada, presente no fundo de nosso inconsciente. Essas forças estão apenas encobertas devido a nossa evolução em termos individualistas e de razão esclarecida. Uma das conquistas do trabalho das constelações foi ter nos levado a experimentar essas ordens ou regulamentações que atuam independentemente de nosso pensamento consciente, permitindo-nos assim lidar sabiamente com elas. Entretanto, são ordens vivas, que estão a serviço da sobrevivência, do crescimento e do progresso nos relacionamentos. Além disso, são ordens que fazem sentido em termos de evolução. Podemos descobri-las, direta ou indiretamente, nas descrições da realidade humana presentes na literatura de todos os séculos.

À semelhança das leis da física, essas ordens de relacionamentos são sempre atuantes. Por exemplo, quem não respeita a lei da gravidade, cai redondamente no chão, porém aquele que a respeita e percebe em conexão com outras leis, pode construir aviões. Assim também as regulações da alma permitem uma série de possibilidades de manipulação, não porém ao belprazer.

A hierarquia pela origem, por exemplo, é uma simples ordem básica: primeiro vem quem chegou primeiro, em seguida vem quem chegou depois. Ela vale no interior de um sistema familiar e indica a cada um sua posição e seu lugar dentro da família. Primeiro vêm os pais, depois os filhos. Entre os filhos, primeiro vem o mais velho, depois o segundo e o terceiro. Em primeiro lugar vêm os pais. Isto significa que sua sobrevivência tem precedência sobre a sobrevivência dos filhos. Isso é compreensível em função da sobrevivência do grupo, pois a sobrevivência dos pais assegura uma nova geração mais rapidamente que a sobrevivência dos filhos. Todo o restante que faz parte das transformações culturais da hierarquia da origem resulta disso e deve ser medido por sua função original. Entretanto, em épocas de superpopulação sua avaliação pode obedecer a critérios diferentes.

A hierarquia pela origem é completada pela “hierarquia pelo progresso”. Por outras palavras: entre dois sistemas diferentes, o novo sistema tem precedência sobre o anterior. Assim, quando os filhos deixam seus pais e se casam e têm filhos, essa nova família tem precedência sobre a família de origem. Isso também faz sentido em termos de evolução e de abertura para o futuro.

É sempre emocionante experimentar como são úteis essas ordens, básicas mas fundamentais, para configurar relacionamentos e resolver conflitos. Todo mundo percebe imediatamente, por exemplo, como é útil quando uma mãe grávida diz à sua filha de três anos: “Você vai ganhar um irmão. No início eu precisarei cuidar muito dele, do mesmo jeito como você mesma precisou muito de mim quando era bebê. Mas você será sempre a minha filha primeira e a mais velha”.

As ordens do amor contribuem para o sucesso dos relacionamentos. Elas são geralmente imediatamente compreensíveis e fundam numa base confiável as relações entre pais e filhos, homem e mulher, e dentro do clã familiar. Aqui as constelações familiares realmente proporcionam ajuda e orientação. O grande interesse delas se prende à capacidade de solucionar que possuem as “ordens do amor”.

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